A Waltz for a Night

Um cronópio encontra uma flor solitária no meio dos campos. Primeiro pensa em arrancá-la, mas percebe que é uma crueldade inútil, e se coloca de joelhos junto dela e brinca alegremente com a flor, isto é: acaricia-lhe as pétalas, sopra para que ela dance, zumbe feito abelha, cheira seu perfume, e deita finalmente debaixo da flor envolvido em enorme paz. A flor pensa: é como uma flor. (J. Cortázar)






Sunday, August 14, 2011



Encurvar-se

Que não seja preciso pular de um segundo andar com a capa voadora dos desenhos animados para aprender que somos homens da terra e não voamos, há que no mínimo se enfiar o dedo na tomada para ouvir da mãe, pouco intolerante a desobediências, não falei? Falou. E aprendeu-se da dor. Que a partir daí as dores não sejam propositais, como pisar no caco de vidro ou espetar-se com o alfinete mal colocado, elas ainda assim intimidam e vão acovardando. Muito a ver com idade também, claro, quando se vê aquela sensação jovem de potência esvair-se com, visualmente, o cabelo branco e, inconscientemente, com o uso cada vez mais frequentes de sapatos para os cacos de vidro. De sapatos para armaduras aquele pulo breve, com toneladas de proteção pesando o andar. A divagância é porque acho que, no clichê, a sensação de potência me foi constante durante um tempo, pensar nas infinitas possibilidades, já que tudo era uma possibilidade; ou naquelas batalhas homéricas que, pensa-se, podem durar a vida, e viver nelas pode ser digno, até grande, não-raro bonito, porque, claro, beleza se associa diretamente a sensação de potência: pode-se encontrar beleza a cada esquina. Hoje não vi um cabelo branco na minha cabeça, mas bateu com um pouco mais de força a covardia, travestida de vontade de ser caracol, que, embora descalço e prontíssimo a se desfazer com qualquer caco de vidro, tem a sua casa e pode encolher-se nela e ficar. Mais vontade de casa do que de beleza para mim, porém, ainda soa covardia, como se houvesse algum desdenho da redenção outrora tão viva no horizonte. Ouve-se da sabedoria popular que há sim beleza no descanso, que ora associo a medo, e nessa paz que parece imposição da idade -- já que um transtorno aos 18 vira blog e um aos 40 vira fraqueza. Mas ainda não me sinto afeita às sabedorias do que agora chamo acovardados, porque de incômodo com ares jovens ainda há a questão que grita, se o encurvar-se com o tempo é sinal de respeito à vida ou só de cansaço dela mesmo. Ou, sei lá, quem sabe a resposta não venha com o tal do cabelo branco.



Saturday, June 11, 2011



Estrelar-se

É assim. Se não me falha a memória, era essa a frase que usava nos posts em que descrevia meu quarto. É a frase que diz agora você presta atenção, porque os detalhes são importantes, embora eu não vá descrever o meu quarto, que não é mais aquele das paredes amarelas, das violetas na janela e da coleção de literatura de que eu até tinha um certo orgulhinho. A coleção foi dividida, entre o quarto descrito há tanto e o novo apartamento, onde ela se colocou na sala por falta de espaço. Mas no meu quarto novo há algozinho de bom, o famoso A noite estrelada do Van Gogh. De alguma maneira, a réplica foi se descolando do vidro em que foi emoldurada, e há partes do quarto, inclusive o centro do céu, o meio bonito em espiral, que fica levemente desfocado-embaçado, como uma imagem em 3D para que se precisa de um óculos para ver bem. Eu não tenho óculos 3D, mas garanto que com eles ficaria mesmo mais bonito. Eu dou garantias sem base empírica, acho que a vida ensina isso do amontoados de clichê que a gente acumula diariamente, cada vez mais amorfos nisso de existência de 6 bilhões e tanto de pessoas, nessa massa toda em que se fincam raízes e raízes sem caules até que, espalhadas, as raízes que são só raízes sem verticalidade nenhuma se tornam permanentes no chão. Um bolo de ramificações indissociáveis do que se pisa. Uma pasta seca. Mas, se olhada de cima, para algum otimista se parecem uma yggdrasil. Eu não sou otimista, nem com a imagem nórdica, que me diz mais da negatividade da precisão de um começo e da indefinição de um fim, qual que seja. A gente já sabe que começa, mas quanto a terminar é só o exercício de implorar, rezar pra que seja bonito, ou que ainda não termine. Às vezes até se reza, nós sempre queremos um pouco mais, tentanto alcançar alturas de que raízes crescentes horizontais são impossíveis. Bando de sísifos. Eu não sou, ou tenho não sido, vá saber de quanto tempo os deuses permitem uma pausa para se lamentar (ou se enternecer) com o vazio ao redor. E agora é a hora do é-assim, você presta atenção: sentar-se na base da montanha e acender um cigarro, olhar para cima e pensar que entre as rochas não importa a altura, já que nada floresce, já que o sol é o mesmo, assim como a noite, já que cume é distante como o horizonte, ao alcance só das linhas paralelas. O cume não é conhecido, mas pense as garantias da vida, os clichês, as afirmações não-empíricas tão exatas. É ter razão subir tanto quanto ficar, sentindo qualquer coisa, até o não-sentir da indiferença, e, no fundo no fundo, e isso nunca será admitido, torcer com todas as forças para que no outro lado da montanha não haja um oásis que nunca se verá e que a vista em volta seja o mesmo nada, e que a noite estrelada não tenha mais estrelas espirais percebidas sem o óculos 3D. É sentar e esperar, cume-base tanto-fazendo. Como uma montanha invertida.



Monday, March 07, 2011



Assunto dos deuses

Desde que ouviu que quando os deuses querem nos punir eles realizam nossos desejos surgiu aquela preocupação com o querer e querer que sempre pensou sustentar a vida. Não foi isso que sempre a literatura, a música, as artes plásticas deram?, aquelas possibilidades que se acreditam existir em dimensões, uma dimensão para cada escolha, e elas se multiplicam e se multiplicam, e às vezes se fode muito em alguma, paciência, mas de que, de tudo, sobra apenas o fim último morte, independente de qualquer escolha de que não se soube, independente do que se (não?) quis, independente dos eus de que não se sabe nas outras dimensões. Morre até o que não foi. Lembra-se de que "chega de perguntas, daqui por diante quero que tudo seja resposta" e cruza os dedos, criando outra dimensão, mas escolhendo nesta não ter escolha, escolhendo que o caminho tome a iniciativa e não o contrário, e que por ora ele se caminhe independente, que a vida flua sozinha, abandonando o ser que vive, como se fosse autônoma, como se existisse por si, como se as coisas continuassem, em qualquer dimensão, em qualquer tempo, em qualquer qualquer para além dele, que hoje decidiu descansar e parar. Ainda querendo o mundo, o todo, mais do que se pode querer, só que não para si. Querer querer, sendo que o que mais queria era não querer, ou vice-versa, até que se encalacre absurdado, na tentativa com pálpebras cerradas de enxergar a vida, rumando sozinha ao horizonte, e talvez acenando.



Sunday, February 20, 2011



What would be my spontaneous attitude toward the universe? It’s a very dark one. The first thesis would have been a kind of total vanity: there is nothing, basically. I mean it quite literally, like… ultimately… there are just some fragments, some vanishing things. If you look at the universe, it’s one big void. But then: how do things emerge? Here I feel a kind of spontaneous affinity with quantum physics, where… the idea… is that the universe is a void, but a kind of positively charged void, and then particular things appear when the balance of the void is disturbed.
I like this idea of spontaneity very much, the fact that it’s not just nothing. Things are out there – it means something went terribly wrong, that what we call creation is a kind of cosmic imbalance, cosmic catastrophe: things exist by mistake. And I’m even ready to go to the end and to claim that the only way to counteract this is to assume the mistake and go to the end. And we have a name for this: it’s called love.
Isn’t love precisely this kind of a cosmic imbalance? I was always disgusted with this notion of ‘"I love the world", "universal love" – I don’t like the world. Basically, I’m somewhere in between "I hate the world" or "I’m indifferent towards it." But the whole of reality, it’s just it: it’s stupid. It is out there. I don’t care about it.
Love, for me, is an extremely violent act. Love is not "I love you all". Love means I pick out something…. Even if this something is just a small detail, a fragile individual person, I say "I love you more than anything else." In this quite formal sense, love is evil.

- Slavoj Žižek



Sunday, February 13, 2011



[É que às vezes o mundo inteiro vai ficando longe e longe, o passo para fora da cama soa como abismo, e, aprendemos, ninguém quer cair no abismo, é só esforço para o contínua-contidamente-continuamos. Só que, também, dos direitos da impaciência, a minha, nesse momento, cobra o de explodir, e de querer o mundo novamente perto, para o passo fora da cama, contidamente continuado.]



Thursday, January 13, 2011



Babel

Fui a essa terapeuta. A primeira pergunta dela foi a óbvia "por quê?". Acho que tenho problemas com a minha autoimagem: o grande problema filosófico da distância entre o eu e o outro, e os olhares para o externo como abismos. Fosse um gênio, teria escrito Um, nenhum, cem mil, e feito do problema um clássico, ou um motivo de risadas, ou qualquer coisa criativa. Mas também tenho problemas com criatividade, aliás, não tenho problemas, porque não tenho criatividade, e com isso sempre fui ok: tocar por partituras, pintar cópias, aprender com o exemplo... coisas que macacos também fazem. Mas voltando ao problema inicial, que de fato existe e até pouco não era considerado grande coisa: afinal, Ly fala muito, (se) pensa(/frita?) muito e acha (achava) que essa distância seria diminuída, amaciada, qualquer coisa que a tornasse menor do que as milhões de trelas que unem as pessoas, se houvesse uma disposição conjunta para com a comunicação. Crença mesmo, com fé e boa vontade. De um ano para cá, porém, o deus da Ly foi se enfraquecendo, como todos os deuses, pelo empirismo. Em todas as discussões de um tempo pra agora, o que me resultou foi sempre um dissenso abissal, como se fossem diferentes idiomas. Devo ser burra, mas existo e, no existir, ao menos a minha burrice eu teria que comunicar, e nem ela eu consigo/o outro consegue. Penso em 6,5 bilhões de idiomas no mundo, e essa me parece ser a explicação mais plausível. Pf. Mentira, nem é: o grande problema é que eu continuo acreditando nesse deus-demônio?-linguagem, e o que acredito ter de fato quedado é uma fé na disposição das pessoas, e daí posso recorrer a Arendt ou a Foucault, para me fundamentar na ideia de que está todo mundo, no jargão, querendo livrar o seu da reta antes de alcançar o outro: que o outro não me veja escuro ou incoerente parece ser o motor de desde um bom-dia a um acordo político. Como se comunicar-se fosse para o próprio ego, e não para o outro, numa troca. Soa-me tão pouco, tanta fraqueza. E me entristeço, eu que só me acredito existir à presença do outro, numa insuficiência vergonhosa. É isso: eu não me enxergo de fato (você estava certo, bem, rs) e ao redor só vejo escuros, pessoas com olhos fechados para a própria escuridão, pálpebras escondendo a luz dos outros, até que morramos sozinhos e silenciosos, e, claro, reclamando da grande incompreensão que assola todo o ser humano pelo simples fato de... ser humano.
Chegado a essa conclusão, questiono o agora. De questões mínimas como o motivo de continuar mantendo o blog (acho que dessa vez fecha, rs) até questões imensas, que se traduzem numa frase do Cohen, how can I exist as a vessel of yesterday's slaughter? É isso, o que fazer agora gira em torno do como carregar aprendizados tão terríveis e torná-los úteis, ou ao menos invisíveis, para o hoje ou o amanhã, para dar conta de sair da cama e enfrentar os minutos, as horas, e conseguir deitar-se à noite sem que o estômago dê nós que contorçam todo o corpo de dor, sem vomitar, sem que a ansiedade leve o sono para o nunca, sem que os dentes ranjam (threnody for her teeth), sem que se pense que outro dia como o de hoje não pode acontecer jamais. Eu não faço a mínima ideia de como será a semana que vem ou o próximo mês, mas definitivamente não é possível mais existir a partir dos últimos anos. Porque toda essa verborragia cansa.



Friday, November 26, 2010



Ambientando

De tanto me olhar, acabei ficando por lá. Nos olhos mesmo, bom lugar para se estar, claro. Não por eu me ver, nada Narciso, mais Prometeu. No início (hoje não?) era algo de que também se poderia dizer alegre mesmo. Fiquei, nos olhos bom lugar, amarelos com o contorno preto em volta, como um monte de metáforas, mas menos janela, menos mar, era mais um lago, porque, fui descobrindo, não havia saída de lá, e, muito pior, nem muita vontade de saída, como não raro acontece com quem, como eu, não tem lá muito o tato da hora de ir embora. Lago amarelo outonal, refletindo o céu, e as folhas, como se se perdesse a noção temporal e espacial e, enfim, noção da vida mesmo: era a sensação de limbo, menos angustiante porque os olhos eram bonitos. Amarelo doente contagioso. Eu me lembro daquele dia no carro, encostada de costas em você, pé escorrendo na janela, olhando coisas que passam tonteando quando se está bem rápido, de me perguntar das cores verdadeiras, verde mais claro quando sol bate ou verde mais escuro na sombra, imaginagens dessas que não levam a lugar algum e se esfacelam brutalmente com uma explicação básica de física, e, olha, o que eu aprendi depois no lago foi a enxergar na sombra e tomá-la como verdade, porque em algum momento, algumas décadas depois, talvez, o sol deixa de ser poente e, acontece, sempre, some, amarelo para roxo para preto e não havia mais, e eu só tateava de dentro da sua pálpebra para achar um caminho para fora, já que agora não havia mais contorno, ou tudo era contorno ou tudo era um buraco mesmo, no preto se perde a noção de profundidade, e só me parecia que, no seu não abrir os olhos, tudo lá dentro se tornou esse grande funil, em que se segura nas bordas para não se engolir pela grande espiral que parece dar em lugar algum, mas é um lugar nenhum abaixo, níveis de limbo e limbo, até que. Até que nada acontece, e é assim que se perde o de dentro, nos outros, e é assim que se explica fácil quando alguém está completamente vazio: é porque está lá naqueles olhos, preenchendo, mobiliando um lugar não-seu, temporariamente, ainda que o temporário dure a vida. De se perder, vem a descoberta de que lar não é tanto uma questão de tempo quanto de simplesmente estar. E estou. Solto a espiral, acho, e me tranco, e jogo a chave para fora, como se você a chorasse.



Saturday, November 06, 2010



Purgando

Meu sábado está com cara de domingo, aquela sensação conhecida de limbo e de nada pronto e no entanto nada no zero, qualquer coisa que gira em torno disso e se mostra presença e ausência sem que haja algo para fazer que não ficar parado figurando qualquer coisa a fazer e já são oito da noite. Um meiotermo enlouquecedor. Hoje no banho usei esse xampu novo, e me veio aquela sensação com cheiro conhecido, como se antes mesmo de passar pelo nariz já socasse a alma. Fiquei pensando exatamente o de que me lembrava o cheiro, e acabou que era de uns dias recentes, bem poucos, e me surpreendi surpresa com o caráter de décadas passadas que os últimos meses adquiriram, como uma extrarrealidade, e não que exatamente me incomode vai passando, mas os últimos tempos não foram meus, e também nem sei se o agora é. Mas é, o tempo passa e as coisas mudam, se acalmam, mas nunca entendi de onde se tirou que elas também melhoram. Que passe o desespero não quer dizer que os tempos se tornam melhores em qualquer aspecto, pelo contrário, a sensação de limbo e de eterno parece se fortalecer tanto tanto no decorrer dos dias. E enfim. Passa rápido, mas demora muito a passar.



Thursday, October 28, 2010



But constant 'till it passed

A lua cheia inaugurou, som que eu ainda não tinha ouvido, vista não vista, essas novidades de belezas para que se olha fascinado e para que se reza em silêncio espero tanto tanto tanto que dure e dura tão pouco, acaba antes de acabar o desejo de que dure, acaba antes, simplesmente. E dá para sentir saudade enquanto se espera que dure, despedida do que ainda é presente, e está indo embora estando, e adeus adeus, o olhar sempre de despedida, mas não revire tanto (tanto!) assim o mundo, eu ainda quero o isso aqui. Tanto.



Friday, October 08, 2010



Pro dia nascer

Enternecimento de fim-de-dia, mesmo que seja já quase uma da manhã, é que fim-de-dia para mim é o momento em que se para e pensa acabou e não fiz nada quem sabe amanhã talvez se. Mas é do enternecimento que falo, redundante dizer que é inesperado, mas é porque quanto pior o tempo menos se espera e talvez mais enternecido se fica, e me lembro da folha caindo na pálpebra da Clarice, e me lembro da chuva de poeira que agora-pouco me tirou a energia de parte de Goiânia e me encheu de poeira marrom no boteco, era terra no corpo, no copo, com uma chuva se anunciando no céu enquanto anunciava também a lama que se tornaria aqui na terra. A queda, sempre. É clichê saber que as coisas têm dois lados? É, e têm, sempre, mas não raro a gente ainda no clichê cinza-às-vezes-marrom-rotineiro esquece, e, inesperadamente, se lembra, enternecidos. E agora eu me lembro de que se há amor há restinho de força para amanhã, e depois e, quem-sabe, até depois.
Beijo, Victor.