Encurvar-se
Que não seja preciso pular de um segundo andar com a capa voadora dos desenhos animados para aprender que somos homens da terra e não voamos, há que no mínimo se enfiar o dedo na tomada para ouvir da mãe, pouco intolerante a desobediências, não falei? Falou. E aprendeu-se da dor. Que a partir daí as dores não sejam propositais, como pisar no caco de vidro ou espetar-se com o alfinete mal colocado, elas ainda assim intimidam e vão acovardando. Muito a ver com idade também, claro, quando se vê aquela sensação jovem de potência esvair-se com, visualmente, o cabelo branco e, inconscientemente, com o uso cada vez mais frequentes de sapatos para os cacos de vidro. De sapatos para armaduras aquele pulo breve, com toneladas de proteção pesando o andar. A divagância é porque acho que, no clichê, a sensação de potência me foi constante durante um tempo, pensar nas infinitas possibilidades, já que tudo era uma possibilidade; ou naquelas batalhas homéricas que, pensa-se, podem durar a vida, e viver nelas pode ser digno, até grande, não-raro bonito, porque, claro, beleza se associa diretamente a sensação de potência: pode-se encontrar beleza a cada esquina. Hoje não vi um cabelo branco na minha cabeça, mas bateu com um pouco mais de força a covardia, travestida de vontade de ser caracol, que, embora descalço e prontíssimo a se desfazer com qualquer caco de vidro, tem a sua casa e pode encolher-se nela e ficar. Mais vontade de casa do que de beleza para mim, porém, ainda soa covardia, como se houvesse algum desdenho da redenção outrora tão viva no horizonte. Ouve-se da sabedoria popular que há sim beleza no descanso, que ora associo a medo, e nessa paz que parece imposição da idade -- já que um transtorno aos 18 vira blog e um aos 40 vira fraqueza. Mas ainda não me sinto afeita às sabedorias do que agora chamo acovardados, porque de incômodo com ares jovens ainda há a questão que grita, se o encurvar-se com o tempo é sinal de respeito à vida ou só de cansaço dela mesmo. Ou, sei lá, quem sabe a resposta não venha com o tal do cabelo branco.
