A Waltz for a Night

Um cronópio encontra uma flor solitária no meio dos campos. Primeiro pensa em arrancá-la, mas percebe que é uma crueldade inútil, e se coloca de joelhos junto dela e brinca alegremente com a flor, isto é: acaricia-lhe as pétalas, sopra para que ela dance, zumbe feito abelha, cheira seu perfume, e deita finalmente debaixo da flor envolvido em enorme paz. A flor pensa: é como uma flor. (J. Cortázar)






Sunday, November 22, 2009



Tudo errado

Eu tinha escrito um post imenso discursando sobre a imbecilidade acoplada ao cromossomo Y, mas desisti das minhas inferências e caminhos para tentar descobrir qual é o grande defeito do Y, como, por exemplo, se o problema não seria apenas a falta de uma das perninhas do X, que, curiosamente, era a perninha da educação, da delicadeza e do bom-senso. O negócio é que homens são sim educados, delicados e têm bom-senso, desde que não sejam seu próprio namorado/peguety. E aí pensamos que eles facilitam em muito as coisas sendo tão imbecis, porque, em tese, fica mais fácil largá-los. Engano, não fica. E daí a conclusão óbvia de que as mulheres são by far mais problemáticas.



Friday, November 20, 2009



Boas-vindas.

Alguém além de mim ficou reparando séculos essa chuva de céu desabando? Cadê Atlas? Tudo está roxo, meio violeta, e daqui de cima dá pra ver a luz dos postes vibrando no chão e as folhas da árvore da frente dando rasantes com o vento. Tenho levado cada vez mais a sério a ideia de o quanto uma experiência ainda é experiência se não compartilhada. Monet, a mais nova companhia, ajuda, enchendo o chão de pelo e o resto do apartamento de fofura sossegada. A companhia é ótima mesmo: de um tédio majestoso. E unhas afiadíssimas. Como não?



Friday, November 13, 2009



Escutando













...





Conversando

Eu achei que isso daqui, o blog, ia durar para sempre. É sério, quando eu me imaginava aos 80 anos, sempre havia, além dos vinte cachorros, as duas agulhas de tricô e nenhum marido, algum compromisso com escrever meu tédio chatinho. E eu ando numa vibe desinspirada tão funda, e tão desinteressada, que acho que acaba antes. Nem é post de fechar blog não, mas assim... Ai que preguiça.

Coisas estranhas. Vi esses dias chegando aqui em casa o Alfredo. Telinha vibrando. Alfredo foi um dos meus professores de física no terceiro (ou no segundo, sei lá) ano do ensino médio. O meu blog antigo tinha a descrição que ele disse entediado ao resolver um exercício de física dificílimo no quadro, “E com uma alegria descabida...”, e ele ainda me reconheceu. Um fofo entediado ele. Queria, depois do “oi”, ter falado “sabe, professor, eu fiquei que nem você está aos 70 anos aos 23”. Mas acho que estamos muito na mesma onda de não dar lá a mínima para confissões em calçadas.

A nova, e última, temporada de House começou com todo o gás. Que delícia têm sido os episódios. Mas o acontecimento foi um meio que reencontro: o ditador do episódio 4, Dibala, foi interpretado por uma saudade tão grande, James Earl Jones. Eu nem sabia o nome dele, só me lembro tanto da sua atuação em Field of Dreams, em que sua personagem alude ao escritor Salinger, de uma só obra, e que depois desapareceu do mundo, recusando-se a falar com qualquer pessoa da imprensa. Esse foi o primeiro filme que me fez chorar (depois dele vieram infinitos) e exatamente por causa dessa atuação do Jones, que é uma das mais lindas lindas lindas que já vi. Super delícia essa recordação.

Voltando ao começo do post, qualquer coisa nessa internet anda insuportável. Sempre mais do mesmo em MSN, Orkut, twitter, blablablablablabláááááá. Preciso de algo útil quando estou online. Aliás, preciso mesmo é ficar sem internet. Eu só consigo conversar com meu Word 2007, olha que beleza.

Ontem no meu meio-sono fiquei pensando num testimonial para escrever e me lembrei daquela foto tão antiga do roupão e azulejos do banheiro ao fundo. Dormi sorrindo o único sorriso do dia. E era mais sorriso ridicularizando do que saudadeando, sabe?, que fique bem claro. We are so vain. So so soooo vain. E, falando em azulejo, a primeira coisa que farei ao me mudar de apartamento será uma reforma no banheiro e a troca dos azulejos por outros maiores: interna de presente para a Tati.

Eu cheguei a postar que Juan Rulfo é o maior acontecimento literário da minha vida nos últimos tempos? Junto com Felisberto Hernández?


Saudade doída dos amigos.



Sunday, November 08, 2009



When I woke up tonight I said I...

Simetria. Lucky, lucky.



Friday, October 30, 2009



Não disse?


Desenho que Aline me deu hoje.



Thursday, October 29, 2009



Customizações

Andávamos eu e Manoel pela rodoviária quando perguntei “o que você vai me dar de presente de aniversário?” e ouvi a resposta, AQUELA resposta: “ah, eu não sei, mas vai ser meio customizado”. A palavra. Cus-to-mi-za-do. Morro de medo. Manoel ainda completou, me fazendo tremer as bases “ah, é bom presente que tem a cara de quem dá”. Pois é, medo. Muito medo de coisas “customizadas”. A única coisa que dá pra customizar sem grandes chances de dar errado é dedicatória de livro, e olha lá, que já me aconteceram dedicatórias que eu não entendi (Manoel bêbado me dando o De Todos os Fogos o Fogo) e dedicatória em que fui chamada de comunista (Pi com seu Loyola Brandão). Mas daí surgiu a ideia de como os meus amigos costumizariam meus presentes, rsrs.

Tati: a embalagem do presente só poderia ser aberta de uma forma, e haveria fiozinhos em curto em volta da embalagem dando choquinhos para cada tentativa de abertura errada. Dentro da caixa, uma balinha de reforço positivo.
Aline: após olhar o que significa “customizar” no dicionário, ela daria pulinhos de alegria, compraria cartolina, giz-de-cera, brocal, papel crepom, lantejoulas e cola colorida e faria algo melado, impossível de entender, e, por isso, fofíssimo.
Beto: sei lá o que sairia, mas a customização se daria por gotas de baba bêbadas em algum lugar do presente (sorry, Beto, sua marca).
Pi: leria os comentários acima e pensaria “o meu presente tem que ser o melhor”. Compraria algo pronto, e diria que ele mesmo fez.
Victor: me tocaria no teclado de presente aquela música que eu sempre sonhei em aprender a tocar. Tirada de ouvido.
Manoel: não sei. Ele perderia o presente antes de me entregar.
Marcelo: não se lembraria de que é meu aniversário.
Suene: lembraria o Marcelo que é meu aniversário e customizaria o presente dizendo que é dela e do Marcelo. Alguma coisa costurada e indie fofona, porque ela é a única da lista que deve saber produzir algo decente sem uma grande corporação por trás.
Tars: misturaria álcool de cozinha com limão e açúcar e me entregaria a garrafa. Pela metade.
Dan: o mesmo da Tars. Mas com a garrafa vazia.



Tuesday, October 20, 2009



Desculpas

Das lições de bar: terminaremos rindo mesmo disso aqui. [Pode até parecer óbvio, nada fica tão grudado na lembrança a ponto de repetir a dor da experiência para sempre. Vai ser trágico agora, e daqui a pouco, mas, é, não vai ser daqui a tanto tempo. A novidade são mesmo as gargalhadas, como de um desespero lunático desprovido de qualquer lógica, e me pergunto se alguém já se parou para pensar na loucura que é uma loucura ilógica e acho que pirei porque fui ruim dessas ruindades propositais só para ver até onde se pode ir, e se vai longe, é essa a verdade. Não podia, porque, se dá voltas para mim, as voltas serão para todos cirandando em acho que vingança, mas nem é vingança consciente, essas recompensas vêm quando já se esqueceu de tudo. O ponto é que até essas conseqüências podem ser ridículas, no sentido literal de fazer rir mesmo, em vez de fazer calar-se/me com a resignação de quem paga honestamente uma dívida. O mais engraçado é que nem eu estou vendo muita coerência nesse post que é dos mais sinceros, e, não, não era psicopatia, bate uma culpa sufocante de vontade de que fosse melhor para todo mundo e de que as coisas dessem certo. Eu não os queria tristes, e fico triste com isso. Fico triste porque sou ruim, é essa a graça.]Terminaremos rindo muito.





A falta de criatividade pós-moderna e, consequentemente, o plágio

Eu tenho um problema: choro muito. E chorar me dá dor de cabeça e sono, logo choro e durmo. Os dois demais. Então, com certa freqüência, vou dormir com bolsões embaixo dos olhos, como Antônio Fagundes, e nunca me liguei para o óbvio: se os bolsões acordam murchos no outro dia, em algum momento minha pele dilatada e contraída daria sinais de dilatação e contração e, mãe!, tenho rugas aos 22 anos. Mamãe, então, me deu dois cremes (um noturno e um diurno, da mesma linha) que ela comprou e deram-lhe reações alérgicas e afins e vim para casa feliz. Hoje acordei com disposição para começar a usá-los e daí surgiu o grande problema outrora despercebido: são da Avon. A Avon ainda faz testes em animais. Fiquei meia hora encarando o pote e meditando sobre usar ou não usar o creme, em forma de protesto, ainda que ele já tivesse sido comprado e dezenas de coelhinhos houvessem morrido com a pele zoada pelo produto de dondocas. Mais do que a decisão, a reflexão rendeu uma boa analogia. Já que nada no mundo é original, tive meu momento de plágio digno no banheiro:



Monday, October 12, 2009



Bom dia

Rs, só agora entendi a onda do Beto de trocar blog por twitter. Acho que é o caminho mesmo, aquele brinquedinho é assaz divertido. Hoje o céu está daquele jeito que sempre falo que amo, bem branco, coberto de nuvens, mas com um restinho de sol que torna o branco brilhante. Gosto tanto. E acordei com a waltz#2 do Elliot na cabeça. Devia estar tendo um sonho tão bom. Agora a morgaçãozinha aqui está uma delícia. Lembrei do Gu, deu uma saudade (meu filho, cadê você, que nunca mais volta?), ouvi o CD novo do Muse, um lixo harmônico. Bellamy, você me decepcionou. Li o restinho de Pedro Páramo, de Juan Rulfo e fiquei pensando na delícia que é encontrar absurdos tão capotantes a essa altura da vida. E me surpreender quando o tédio dá uma brecha a paixões instantâneas.



Saturday, October 10, 2009



Sujando

Trabalho muito é desculpa, o dormir pouco deve ser algo tipo de Pehnt e de sujeiras. Ando bariccando tanto nas horas em que deveria estar estudando, mas não durmo, as sujeiras. Sei lá, às vezes dá até vontade de pedir desculpas nem pelo erro mas falar você me entendeu tão mal e eu só não consertei sua linha de pensamento serpentenosa que enrolou, deu de cara com a própria cauda é, olha só, é isso, eu só gostava de como ela se movimentava dançando a lugar nenhum, era bonitinho, porque, no fundo no fundo, fale a verdade, parecia que era tudo brincadeira e que suas idéias se enrolavam pelo tédio de simplesmente caminhar o óbvio e paravam no meio do caminho para dançar boba enquanto eu distraída achava bonitinho. Eu não durmo porque a culpa é sua e você poderia por favor me devolver a paz de consciência que sonolenta os justos porque, vamos combinar, eu não tenho nada a ver com nada. Estou aqui, parada, perdendo os pontos enquanto escrevo, o que cargas d’água aconteceu com a minha capacidade de expressão que se tornou um imenso emaranhado de nada contínuo que não aceita uma vírgula de descanso, olhando os pisos tortos e caminhando as duas pizzas ligadas por um corredor que é o meu apartamentozinho solitariozinho muito bem com esse medo que as pessoas têm que é a solidãozinha que angustiazinha o coraçãozinho. Aliás, muito bem não, porque eu dei para incorrer nuns paradoxos meio estranhos do tipo estou sozinha e quero alguém aqui estou com alguém aqui e quero estar sozinha. Sabe do que eu precisava? De um gato de Schrodinger, mas um bichano soltaria pelos. Tinha que ser tipo um vocalista do Rammstein com os olhos verdes, a barba ruiva e umas garras do Wolverine, com a voz do Baricco mas falando em alemão mesmo, que isso de compreender o que se diz só serve para dar trabalho e olheiras. Schrodingando pelo apê. É que se você fosse uma criança eu o imaginaria quebrando o brinquedo preferido para praticar a vida antes da hora, é meio que isso, e talvez a desculpa fosse por algo parecido com eu chegar e chutar o brinquedo antes porque no fim não é para aprender isso da vida, é que a graça está no vivermorrer tentando manter intactas essas pequenezas pelas quais a gente acaba criando amor e não se pode sair destruindo esses fragmentozinhos tão raros depósitos de afeição que, droga, eu chutei isso tudo. Antes da hora eu, antes da hora você. E preciso dormir. Me desculpe.



Thursday, October 08, 2009



Rabiscos

Olha só quem resolveu aparecer. A querida linksys, a conexão que me permite postar clandestinamente no blog. Empolguei, comprei um maço de cigarros com parte do dinheiro do almoço de amanhã e cá estou a postar, comemorando com uma cerveja. Ê! Num misto de um monte de coisas, que, num bolo bem heterogêneo, está longe de ser chamado de alegria, mas... vamos que vamos. E faltou inspiração. Seguem em anexo dois parágrafos que escrevi há alguns dias, nem marquei, mas ficou no meu note até a belezura do meu vizinho voltar a compartilhar a rede dele comigo. Vizinho, você é um fofo.

Porque lá dava para ficar no total escuro e no total silêncio. Os dois são de uma densidade que, de novo, me retorna à ideia de que vazio é coisa só dos meus dias, dissonantes da lógica do universo – e, diz-se, de Kundera, para quem só o vazio é insustentável. Nunca esqueço. – e de qualquer outra lógica. Paradoxalmente, é o vazio que vai desacolunando o dia, os minutos em potencial preenchidos com vazio de café, vazio de estudos, vazio de trabalho, vazio de vazios e essas coisas que, de alguma maneira, parecem de alguma densidade, mas são tão etéreas, e impalpáveis, e... conjunção aditiva para oração em potencial. Que nem silêncio e escuridão que não deveriam ser densos, mas são e os meus dias... será? Em potencial. A que conclusão eu deveria chegar? Por enquanto só nego Kundera, porque tenho meu orgulho, e digo não, não é insustentável.

A vida está toda fora de hora. Daria um trocadilho, algo sobre as horas não considerarem que existem para marcar vida. Penso em qual delas é mais imbecil, a vida ou as horas, a primeira ou a segunda assertiva. Penso e penso e não há nada mesmo para fazer que não ver essas despontualidades pontuando o-que-deveria-ter-sido (e lembro Franz Ferdinand, the only difference is what might be is now what might have been)... E projeto que tudo virá também fora de hora, vida, felicidade, porque de preciso só existe mesmo o esperar. E penso... e troco... e da vida aprendera o imprevisível poder terapêutico da espera. Acho que enlouqueci, passando da hora.

Fiquei pensando (isso já é de hoje) na honestidade de esgotar escolhas, depois de haver matado tantas. Mas isso acho que meio que faz a vida mais infeliz. Ficar vivendo a conta-gotas esperando que não respingue mais nada. Que coisa. Hoje me lembrei de um trecho de uma crônica da Lispector. Ela está andando por um parque, e uma folha pequena de uma árvore cai nas pálpebras dela e ela diz "Achei Deus de uma grande delicadeza". Estava eu andando para comprar os cigarros mencionados acima e uma ventania despejou aquelas florezinhas amarelas em cima de mim, e da rua inteira. Flores no meu cabelo para sempre. Primeiro me lembrei dela, depois pensei que, fosse mesmo obra divina, me teria caído o tronco da árvore à cabeça. Mas quis cortar esse segundo pensamento, só para manter a ideia de delicadeza por uns momentos. E, dando continuidade à livre-associação, me lembrei, falando de delicadeza, de um post meu de quando voltei pela última vez da praia, falando da gentileza da areia escorrendo por baixo dos pés enquanto se caminha uma onda recém-ida, naquele pedaço de praia momentaneamente escurecido de mar. Preciso viajar.



Thursday, September 24, 2009



Enfim

É que... é.

[Apesar de nunca dever ser e todo mundo ficar esperando que não seja e, ah, tijolo pra cá, cimento pra lá e pronto! uma vida inteirinha construída desalicerçada de razão e de força e de escolhas porque, vamos lá, esse negócio de poder escolher é pura enganação que contaram para trazer calma e se o carro atropela na porta de casa enquanto o cigarro voa pelos céus em câmera lenta e quase dá uma cena de Forrest Gump ou a bala escorrega as entranhas e respinga sangue também em câmera lenta quase lembrando American Beauty e nada disso acontece porque é tão pouco para os nossos olhos lentos de falta de câmera que, ó, nem nada fica bonito e a gente só vê o resto de sangue amarronzando o asfalto, e, se chover, nem isso, asfalto lavado, e empoçando o cigarro. Se chove e é fechado é pior, sangue seca sem que se fume o resto voado da mão do atropelado, maldita lei, e e? A gente só vê. E pensar nas outras infinitas possibilidades de desescolhas, céus, eu quero ficar quieta enrolada no cobertor esperando que, por muita muita grande infinita sorte, não aconteça nada, que é o melhor que pode acontecer.]



Wednesday, September 09, 2009



Mundão

Hoje estou me sentindo Novecentos, sem entender esse monte de caminhos e decisões e aleatoriedades e desejando muito que tudo se limite. Aliás, estou mais padre Pluche, numa bifurcação absurda que olha tonta para mim de tanto se perder e, ah!, ah. Até paro para perguntar se livre-arbítrio é dádiva ou castigo divino. Não é não querer escolher ou ter que escolher, ou qualquer coisa de vontades... É que é tudo tanto. Mais do que dá. E nem é ruim, só é muito. Para, olha para o chão, sorri, quase chora e só diz é-tanto. E vou aproveitar, que Manoel já tinha feito o favor lindo (brigada!) de postar no blog dele uma das orações do Padre Pluche, porque eu não teria a mínima paciência para digitar, e estou tão ela hoje. Tão.

Oração para alguém que se perdeu, e portanto, a bem da verdade, oração para mim.

Senhor Bom Deus
tenha paciência
sou eu outra vez.

Então, aqui as coisas
vão bem,
quem mais, quem menos,
vamos nos arranjando,
na prática,
no fim sempre se acha um jeito,
um jeito de virar-se,
o senhor me entende,
enfim, o problema não é este.
O problema seria outro,
se tiver a paciência de ouvir
de ouvir-me
de.
O problema é este caminho
belo caminho
este caminho que corre e escorre
e socorre
mas não corre direito
como poderia
e tampouco torto
como saberia
não.
Curiosamente,
se desfaz.
Acredite
(por uma vez acredite o Senhor em mim)
se desfaz.
Tendo de resumir,
ele vai
um pouco por aqui
e um pouco por ali
tomado
de improvisa
liberdade.
Quem sabe.
Agora, sem querer apoucá-lo, mas eu teria de explicar-lhe essa coisa, que é coisa de homens, e não é coisa de Deus, de quando o caminho que se tem pela frente se desfaz, se perde, se arregala, se eclipsa, não sei se faz idéia, mas é fácil que não faça idéia, é uma coisa de homens, em geral, perder-se. Não é coisa sua. É preciso que tenha paciência e me deixe explicar. Coisa rápida, leva um instante. Antes de mais nada não se deve deixar despistar pelo fato de que, tecnicamente falando, não se pode negar, este caminho que corre e escorre e socorre, debaixo das rodas dessa carruagem, de fato, querendo ater-se aos fatos, não se desfaz nem um pouco. Tecnicamente falando. Continua direto, sem hesitações, nem sequer uma tímida bifurcação, nada. Direto como um fuso. Posso ver por mim mesmo. Mas o problema, deixe-me dizer, não é este. Não é deste caminho, feito de terra e pó e pedras, que estamos falando. O caminho em questão é outro. E corre não fora mas dentro. Aqui dentro. Não sei se faz idéia: o meu caminho. Todos têm um, o senhor também deve saber disso, porque, aliás, não é estranho ao projeto dessa máquina que somos, todos nós, cada qual ao seu modo. Um caminho dentro, todos o têm, coisa que facilita, na maioria dos casos, a incumbência desta nossa viagem, e só raramente, complica-a. Agora é um daqueles momentos em que a complica. Querendo resumir querendo, é aquele caminho, aquele dentro, que se desfaz, bendito, não existe mais. Acontece. E não é coisa agradável.
Não. Assim agora, querendo resumir querendo, o problema é este, que tenho tantos caminhos ao redor e nenhum dentro. (...) Como vê não é que eu não tenha as idéias claras, tenho-as claríssimas, mas só até certa altura da questão. Sei perfeitamente qual é a pergunta. É a resposta que me falta. Corre, esta carruagem, e eu não sei para onde. Penso a resposta e minha mente torna-se escuridão.
Assim
esta escuridão
eu a pego
e a ponho
em suas
mãos.
E peço-lhe
Senhor Bom Deus
que fique com ela
uma hora somente
fique com ela em suas mãos
o tanto que basta
para desmanchar-lhe o negro
para desmanchar-lhe o mal
que faz à cabeça
aquela escuridão
e aquele negro
ao coração,
quer?
O senhor poderia
mesmo somente
dobrar-se
olhá-la
sorrir dela,
abri-la
roubar-lhe
uma luz
e deixá-la cair
que afinal
de encontrá-la
trato eu depois
de ver
onde está.
Uma coisinha de nada
para o senhor
tão grande
para mim.
Está me ouvindo
Senhor Bom Deus?
Não é pedir muito
pedir-lhe se.
Não é ofensa esperar que o senhor.
Não é tolo
iludir-se que.
E afinal é só uma oração,
que é um modo de escrever
o perfume da espera.
Escreva o senhor,
onde quiser,
o caminho
que eu perdi.
Basta um sinal,
um quê,
um arranhão
leve
no vidro
desses olhos
que olham
sem ver,
eu o verei.
Escreva
no mundo
uma só palavra
escrita para mim
a
lerei.
Renteie
um instante
deste silêncio
eu ouvirei.
Não tenha medo,
eu não tenho.

E que resvale distante
esta oração
com a força das palavras
para além da gaiola do mundo
até sabe-se lá onde.
Amém.


A. Baricco, Oceano Mar.



Monday, September 07, 2009



HAMM
Before you go... (Clov halts near door.) ...say something.
CLOV
There is nothing to say.
HAMM
A few words... to ponder... in my heart.
CLOV
Your heart!
HAMM
Yes. Pause. Forcibly. Yes! Pause.
With the rest, in the end, the shadows, the murmurs, all the trouble, to end up with. Pause. Clov... He never spoke to me. Then, in the end, before he went, without my having asked him, he spoke to me. He said...
CLOV despairingly
Ah...!
HAMM
Something... from your heart.
CLOV
My heart!
HAMM
A few words... from your heart. Pause.
CLOV fixed gaze, tonelessly, towards auditorium
They said to me, That's love, yes, yes, not a doubt, now you see how—
HAMM
Articulate!
CLOV as before
How easy it is. They said to me, That's friendship, yes, yes, no question, you've found it. They said to me, Here's the place, stop, raise your head and look at all that beauty. That order! They said to me, Come now, you're not a brute beast, think upon these things and you'll see how all becomes clear. And simple! They said to me, What skilled attention they get, all these dying of their wounds.
HAMM
Enough!
CLOV as before
I say to myself — sometimes, Clov, you must learn to suffer better than that if you want them to weary of punishing you — one day. I say to myself — sometimes, Clov, you must be better than that if you want them to let you go — one day. But I feel too old, and too far, to form new habits. Good, it'll never end, I'll never go. Pause. Then one day, suddenly, it ends, it changes, I don't understand, it dies, or it's me, I don't understand that either. I ask the words that remain — sleeping, waking, morning, evening. They have nothing to say. Pause. I open the door of the cell and go. I am so bowed I only see my feet, if I open my eyes, and between my legs a little trail of black dust. I say to myself that the earth is extinguished, though I never saw it lit. Pause. It's easy going. Pause. When I fall I'll weep for happiness. Pause. He goes towards door.
HAMM
Clov! Clov halts, without turning. Nothing. Clov moves on. Clov!
Clov halts, without turning.
CLOV
This is what we call making an exit.
HAMM
I'm obliged to you, Clov. For your services.
CLOV turning sharply
Ah pardon, it's I am obliged to you.
HAMM
It's we are obliged to each other.

Endgame, Samuel Beckett



Sunday, September 06, 2009



Feliz aniversário!

Hoje é o dia mundial do sexo. Comemoramos. Na casa da Aline, Aline derruba cerveja e quebra copos e mia de desgosto da vida. Victor joga supernintendo e manda mensagem pro amor dele e ri ("Ah, gente, vocês veem tristeza em tudo..."). Eu jogo videogame com o Victor e ganho dele. Dora cozinha um macarrão delicioso e calórico, que nos garantirá o próximo 6 de setembro novamente na companhia dos amigos.



Friday, September 04, 2009



Resenha supercrítica de Wolverine

Acabei de ver Wolverine. Melhor do que o esperado. Mas, para sanar a dúvida de metade do público ao segurar a capinha do filme e olhar com expressão duvidosa: sim, rola o Jackman pelado, pouco, mas vá lá. Sim, rola close nas costas dele. Sim, rola a cena em que ele acorda de um pesadelo e a câmera está por cima (o nome é plongé?) filmando as veias saltadas. Sim, rola a cena do caminhar em câmera lenta com a explosão atrás (ô fogo!). Sim, rola a cena do grito visceral de abalar qualquer estrutura, principalmente pernas. Sim, rola a cena de ele na moto voando de uma explosão. Não, não rola a cena de sexo com a mocinha. E, sim, ainda assim compensa. Mas, caso seja o moçoilo o motivador único, melhor locar Australia e esperar a cena do banho, o melhor um minuto do cinema.





Conspiracionismos

Vamos lá. Atualização rápida. Como a graça do meu vizinho, num surto de egoísmo, cortou sem aviso prévio a conexão que ele gentil, gratuita e inconscientemente me cedia, estou sem internet. Vai pôr, Ly? Nem a pau: eu preciso corrigir umas duas mil redações esse mês para pagar as minhas contas e comprar meu suprimento mensal de miojo. Com internet fico sem miojo.

Hoje estava pensando se o mundo acaba ou não em 2012. Nesse ano, estarei ou muitíssimo feliz num mestrado ou estarei infeliz recém-formada, pobre, competindo por vaga no mercado de trabalho. Pensei: se eu estiver feliz, o mundo acaba. Não, eu não sou o umbigo do universo, só sou cretinamente azarada. Vou, então, tentar ficar bastante infeliz para que a Terra ainda tenha mais umas décadas de vida. Agradeçam-me e mandem seus filhos me agradecerem. Ly salvará o mundo.

Mas ainda sobre o fim do mundo. Os cálculos que o previram estavam relacionados aos astros e eram feitos sem satélites ultramegassatélites (adoro o novo acordo ortográfico). Se o mundo fosse mesmo acabar, um grande número desse povo que mexe com a brincadeira de observar o fora-da-Terra saberia, não? Não seria apenas uma elite louca para esconder a informação enquanto os africanos sustentam a tecnologia que eles utilizarão para zarpar da Terra dois dias antes. Ou seria? Algum físico lê meu blog? Por favor, tenha a bondade de me dizer se eu precisarei de mais dois anos de miséria.

Ontem no meu meio-sono, fiquei pensando na minha relação com a Aline. Descobri uma coisa que, apesar dos pesares, pode até talvez quem saiba soar fofa. É que a quenga vai dar em cima do meu próximo (?) namorado (?). E dos outros (?). E do meu marido (?). A Aline vai pegar o meu (?) marido (?). E eu prefiro que a minha vida seja assim, com a nossa amizade, a ter a Aline distante. Aiai, Aline, como você não vale nada... é, e isso é uma declaração de amor.

Sabe... o Google tem fotos precisas de qualquer lugar do mundo. O bando de informações dele salva qualquer coisa que digitemos em seu sistema de busca. Salva qualquer coisa que coloquemos no nosso perfil. Exige direitos autorais sobre o que postamos nos nossos blogs. Ele nos conhece melhor do que a nossa mãe. Vocês não têm um medo absurdo disso não?



Sunday, August 30, 2009



Notas de

Ultimamente tenho sentido um certo constrangimento com meus posts. Medo de que eles afetem que não devem afetar ou façam sentir um direcionamento que não existe, e que, se existe, não importa, já que veio para o blog. O que vejo de melhor nele, o fato de ser tão pessoal, tão eu, tem me incomodado. Quase em penso em desistir disso aqui... mas colocar o que no lugar?

Eu estou esperando. Claro que uma espera de 22 anos deve ter algo de patológico. Mas os provisorismos se mostram cada vez mais bonitos.

Nossa, eu nunca comentei aqui no blog sobre Once. Uma surpresa muito grande. Depois de Before Sunrise e Before Sunset eu não esperava ser atingida por um filme com uma sensibilidade parecida, filme de amorzinho etéreo doce só por ser doce. Sem grande enredo, só algo belo acontecendo para parar de acontecer logo em seguida.

Mas não para de acontecer no Before Sunset. Babe, you are... gonna miss... that plane não é o maior acontecimento verbal do cinema?

Falando em filme romântico, coisas engraçadas da vida. Eu amei o PS: I love you, e acabei silenciando o gosto queima-filme-como-sou-solteirona-desesperada. E ontem estava todo mundo aqui em casa falando que gostou e justificando o gosto “não, mas ele não é clichê, não mas ele tem um enredo todo foda”. Claro que tem, e daí? Todo mundo babando no filme e pronto. Aceitem, estaremos aos 80 anos (pelo menos metade de nós) falando sobre as mesmas coisas desesperados em algum apartamento. Espero que seja pelo menos um apartamento em Oslo.

Falando em Oslo, hoje acordei com a vontade imensa de ir também. O que estou fazendo em Goiânia? Esperando. Depois de 22 anos? É. Vontade de esperar em outro lugar e engatar um mestrado fora daqui. Do Brasil, porque não dá para sair do mundo. (Não?)

Eu lembro dos posts sobre negação. Lembro do post da primeira, da segunda e da terceira. Eu postei uma quarta? Nem lembro. Mas pode ser agora. Tudo parece ter tatuado um não na testa. Talvez deva seguir o fluxo.

Ontem fui salva mais uma vez. Não dá para levar uma vida inteira assim? Dá.

Que vontade de a minha felicidade está sonhando... falem baixo por favor, para que ela acorde alegre como o dia. Mas é isso, não é? Que durma bem mesmo.

Depois de me emputecer com o final de Gran Torino (gente, eu entendi o final, blábláblá, que saco), fiquei pensando nos meus achismos errados. Por exemplo: eu vejo a Happy Together do The Turtles incrivelmente triste. Eu vejo redenção no final de Lady Vingança. Eu vejo afetação naquele último filme do Sam Mendes (qual o nome mesmo? Com a Winslet e o di Caprio). Eu vejo força e vigor n’O Mito de Sísifo do Camus. E eu não vejo nada aí, nem aqui. Ham?

Vou postar a continuação do trecho d'A Caixa Preta que está no template do blog. Inclusive, quase me identifico mais com essa continuação:
...Ou não. Não reze.
Em vez de rezar, construa com Yifat uma torre de Davi com os cubos. Leve-a ao zoológico. Ao cinema. Frite ovos estrelados para ela, tire a nata do chocolate, diga-lhe
beba, jarro cheio não faz barulho. Não se esqueça de comprar para ela um pijama de flanela para o inverno. E também sapatos novos. Não a entregue para sua cunhada. Pense às vezes como Boaz carrega o pai nos braços. E à noite, ao voltar de suas viagens? Você senta de meias diante da televisão até que o cansaço o vença? Adormece vestido na poltrona? Acende um cigarro no outro? Ou, em vez disso, fica sentado aos pés do seu rabi, estudando a Torá entre lágrimas? Compre um cachecol quente para você. Em meu nome. Não se resfrie. Não fique doente.
E eu esperarei por você.



Saturday, August 29, 2009



Concordâncias

Ana foi a última querida que conheci pessoalmente após uns anos de msn. Tão tão linda pessoalmente, todo mundo tinha que ver. Vou livrar vocês da babação melosa que tenho com os meus amigos. Aqui de homenagem o motivo de a gente se dar tão bem:

Ana. diz (23:59):
eu vou levar isso tudo na sacanagem, certeza
rs
ly (there there) diz (00:00):
rsrs
de boa.
faça com cuidado pra não magoar ninguém.
assim, vc vai magoar. mas que seja pouco.

Ana. diz (00:01):
eu sempre consigo não magoar ninguém e sair arrasada, é a minha especialidade
ly (there there) diz (00:02):
hahahaha
bate aqui então, o/
hauahaha, tb sou mestre nisso.
Ana. diz (00:02):
ishuaishua
Ana. diz (00:03):
e sinto uma coisinha quando penso no paulo
tipo envelhecer junto
acho que é porque ele é caipira
ly (there there) diz (00:04):
eu tb tenho isso.
vontade de ter uma chácara e criar vacas, ana?
Ana. diz (00:06):
aiiin e porcos e galinhas
ly (there there) diz (00:06):
odeio galinhas
Ana. diz (00:07):
e fazer comidas maravilhosas no fogão a lenha *--*
mas acho que vou acabar velha fumando derby red num bar imundo
ou...morrer cedinho de overdose
ly (there there) diz (00:07):
eiai
mas é minha cria demais da conta, hahahaha
Ana. diz (00:08):
ishuaishua ♥


Ela não aprendeu direitinho?