Ainda que só um prego
Hoje fui tentar grudar um prego para grudar um quadro na parede, e sequer consegui marcar a dita cuja: prego nem furou a tinta, e senti que, se colocasse mais força, esmagaria o dedão em sangue e unha roxa que logo cai. Acho unha roxa uma das coisas mais nojentas do mundo, principalmente se for do pé. Daí esmagaria o dedão, olharia, olharia, choraria. Durante infinitos dias: aqui em casa, na ambulância que chamaria, no hospital, e depois depois depois depois. Tempo tempo tempo tempo. E alguém falaria mas já passou, já tomou o remédio, e eu diria que não para de doer, e que não para nunca, porque dor gruda e segue, para sempre, como uma sombra. E explicaria que estou com uma sombra de dor que não para de crescer e se espalhar como se jamais fosse haver corpo suficiente para tanto e como se em algum momento o mundo fosse ficar todo escuro.da sombra. Disseram por aí que viver é negócio perigoso. Ô.

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