Ambientando
De tanto me olhar, acabei ficando por lá. Nos olhos mesmo, bom lugar para se estar, claro. Não por eu me ver, nada Narciso, mais Prometeu. No início (hoje não?) era algo de que também se poderia dizer alegre mesmo. Fiquei, nos olhos bom lugar, amarelos com o contorno preto em volta, como um monte de metáforas, mas menos janela, menos mar, era mais um lago, porque, fui descobrindo, não havia saída de lá, e, muito pior, nem muita vontade de saída, como não raro acontece com quem, como eu, não tem lá muito o tato da hora de ir embora. Lago amarelo outonal, refletindo o céu, e as folhas, como se se perdesse a noção temporal e espacial e, enfim, noção da vida mesmo: era a sensação de limbo, menos angustiante porque os olhos eram bonitos. Amarelo doente contagioso. Eu me lembro daquele dia no carro, encostada de costas em você, pé escorrendo na janela, olhando coisas que passam tonteando quando se está bem rápido, de me perguntar das cores verdadeiras, verde mais claro quando sol bate ou verde mais escuro na sombra, imaginagens dessas que não levam a lugar algum e se esfacelam brutalmente com uma explicação básica de física, e, olha, o que eu aprendi depois no lago foi a enxergar na sombra e tomá-la como verdade, porque em algum momento, algumas décadas depois, talvez, o sol deixa de ser poente e, acontece, sempre, some, amarelo para roxo para preto e não havia mais, e eu só tateava de dentro da sua pálpebra para achar um caminho para fora, já que agora não havia mais contorno, ou tudo era contorno ou tudo era um buraco mesmo, no preto se perde a noção de profundidade, e só me parecia que, no seu não abrir os olhos, tudo lá dentro se tornou esse grande funil, em que se segura nas bordas para não se engolir pela grande espiral que parece dar em lugar algum, mas é um lugar nenhum abaixo, níveis de limbo e limbo, até que. Até que nada acontece, e é assim que se perde o de dentro, nos outros, e é assim que se explica fácil quando alguém está completamente vazio: é porque está lá naqueles olhos, preenchendo, mobiliando um lugar não-seu, temporariamente, ainda que o temporário dure a vida. De se perder, vem a descoberta de que lar não é tanto uma questão de tempo quanto de simplesmente estar. E estou. Solto a espiral, acho, e me tranco, e jogo a chave para fora, como se você a chorasse.

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