A Waltz for a Night

Um cronópio encontra uma flor solitária no meio dos campos. Primeiro pensa em arrancá-la, mas percebe que é uma crueldade inútil, e se coloca de joelhos junto dela e brinca alegremente com a flor, isto é: acaricia-lhe as pétalas, sopra para que ela dance, zumbe feito abelha, cheira seu perfume, e deita finalmente debaixo da flor envolvido em enorme paz. A flor pensa: é como uma flor. (J. Cortázar)






Friday, November 26, 2010



Ambientando

De tanto me olhar, acabei ficando por lá. Nos olhos mesmo, bom lugar para se estar, claro. Não por eu me ver, nada Narciso, mais Prometeu. No início (hoje não?) era algo de que também se poderia dizer alegre mesmo. Fiquei, nos olhos bom lugar, amarelos com o contorno preto em volta, como um monte de metáforas, mas menos janela, menos mar, era mais um lago, porque, fui descobrindo, não havia saída de lá, e, muito pior, nem muita vontade de saída, como não raro acontece com quem, como eu, não tem lá muito o tato da hora de ir embora. Lago amarelo outonal, refletindo o céu, e as folhas, como se se perdesse a noção temporal e espacial e, enfim, noção da vida mesmo: era a sensação de limbo, menos angustiante porque os olhos eram bonitos. Amarelo doente contagioso. Eu me lembro daquele dia no carro, encostada de costas em você, pé escorrendo na janela, olhando coisas que passam tonteando quando se está bem rápido, de me perguntar das cores verdadeiras, verde mais claro quando sol bate ou verde mais escuro na sombra, imaginagens dessas que não levam a lugar algum e se esfacelam brutalmente com uma explicação básica de física, e, olha, o que eu aprendi depois no lago foi a enxergar na sombra e tomá-la como verdade, porque em algum momento, algumas décadas depois, talvez, o sol deixa de ser poente e, acontece, sempre, some, amarelo para roxo para preto e não havia mais, e eu só tateava de dentro da sua pálpebra para achar um caminho para fora, já que agora não havia mais contorno, ou tudo era contorno ou tudo era um buraco mesmo, no preto se perde a noção de profundidade, e só me parecia que, no seu não abrir os olhos, tudo lá dentro se tornou esse grande funil, em que se segura nas bordas para não se engolir pela grande espiral que parece dar em lugar algum, mas é um lugar nenhum abaixo, níveis de limbo e limbo, até que. Até que nada acontece, e é assim que se perde o de dentro, nos outros, e é assim que se explica fácil quando alguém está completamente vazio: é porque está lá naqueles olhos, preenchendo, mobiliando um lugar não-seu, temporariamente, ainda que o temporário dure a vida. De se perder, vem a descoberta de que lar não é tanto uma questão de tempo quanto de simplesmente estar. E estou. Solto a espiral, acho, e me tranco, e jogo a chave para fora, como se você a chorasse.



Saturday, November 06, 2010



Purgando

Meu sábado está com cara de domingo, aquela sensação conhecida de limbo e de nada pronto e no entanto nada no zero, qualquer coisa que gira em torno disso e se mostra presença e ausência sem que haja algo para fazer que não ficar parado figurando qualquer coisa a fazer e já são oito da noite. Um meiotermo enlouquecedor. Hoje no banho usei esse xampu novo, e me veio aquela sensação com cheiro conhecido, como se antes mesmo de passar pelo nariz já socasse a alma. Fiquei pensando exatamente o de que me lembrava o cheiro, e acabou que era de uns dias recentes, bem poucos, e me surpreendi surpresa com o caráter de décadas passadas que os últimos meses adquiriram, como uma extrarrealidade, e não que exatamente me incomode vai passando, mas os últimos tempos não foram meus, e também nem sei se o agora é. Mas é, o tempo passa e as coisas mudam, se acalmam, mas nunca entendi de onde se tirou que elas também melhoram. Que passe o desespero não quer dizer que os tempos se tornam melhores em qualquer aspecto, pelo contrário, a sensação de limbo e de eterno parece se fortalecer tanto tanto no decorrer dos dias. E enfim. Passa rápido, mas demora muito a passar.