A Waltz for a Night

Um cronópio encontra uma flor solitária no meio dos campos. Primeiro pensa em arrancá-la, mas percebe que é uma crueldade inútil, e se coloca de joelhos junto dela e brinca alegremente com a flor, isto é: acaricia-lhe as pétalas, sopra para que ela dance, zumbe feito abelha, cheira seu perfume, e deita finalmente debaixo da flor envolvido em enorme paz. A flor pensa: é como uma flor. (J. Cortázar)






Thursday, January 13, 2011



Babel

Fui a essa terapeuta. A primeira pergunta dela foi a óbvia "por quê?". Acho que tenho problemas com a minha autoimagem: o grande problema filosófico da distância entre o eu e o outro, e os olhares para o externo como abismos. Fosse um gênio, teria escrito Um, nenhum, cem mil, e feito do problema um clássico, ou um motivo de risadas, ou qualquer coisa criativa. Mas também tenho problemas com criatividade, aliás, não tenho problemas, porque não tenho criatividade, e com isso sempre fui ok: tocar por partituras, pintar cópias, aprender com o exemplo... coisas que macacos também fazem. Mas voltando ao problema inicial, que de fato existe e até pouco não era considerado grande coisa: afinal, Ly fala muito, (se) pensa(/frita?) muito e acha (achava) que essa distância seria diminuída, amaciada, qualquer coisa que a tornasse menor do que as milhões de trelas que unem as pessoas, se houvesse uma disposição conjunta para com a comunicação. Crença mesmo, com fé e boa vontade. De um ano para cá, porém, o deus da Ly foi se enfraquecendo, como todos os deuses, pelo empirismo. Em todas as discussões de um tempo pra agora, o que me resultou foi sempre um dissenso abissal, como se fossem diferentes idiomas. Devo ser burra, mas existo e, no existir, ao menos a minha burrice eu teria que comunicar, e nem ela eu consigo/o outro consegue. Penso em 6,5 bilhões de idiomas no mundo, e essa me parece ser a explicação mais plausível. Pf. Mentira, nem é: o grande problema é que eu continuo acreditando nesse deus-demônio?-linguagem, e o que acredito ter de fato quedado é uma fé na disposição das pessoas, e daí posso recorrer a Arendt ou a Foucault, para me fundamentar na ideia de que está todo mundo, no jargão, querendo livrar o seu da reta antes de alcançar o outro: que o outro não me veja escuro ou incoerente parece ser o motor de desde um bom-dia a um acordo político. Como se comunicar-se fosse para o próprio ego, e não para o outro, numa troca. Soa-me tão pouco, tanta fraqueza. E me entristeço, eu que só me acredito existir à presença do outro, numa insuficiência vergonhosa. É isso: eu não me enxergo de fato (você estava certo, bem, rs) e ao redor só vejo escuros, pessoas com olhos fechados para a própria escuridão, pálpebras escondendo a luz dos outros, até que morramos sozinhos e silenciosos, e, claro, reclamando da grande incompreensão que assola todo o ser humano pelo simples fato de... ser humano.
Chegado a essa conclusão, questiono o agora. De questões mínimas como o motivo de continuar mantendo o blog (acho que dessa vez fecha, rs) até questões imensas, que se traduzem numa frase do Cohen, how can I exist as a vessel of yesterday's slaughter? É isso, o que fazer agora gira em torno do como carregar aprendizados tão terríveis e torná-los úteis, ou ao menos invisíveis, para o hoje ou o amanhã, para dar conta de sair da cama e enfrentar os minutos, as horas, e conseguir deitar-se à noite sem que o estômago dê nós que contorçam todo o corpo de dor, sem vomitar, sem que a ansiedade leve o sono para o nunca, sem que os dentes ranjam (threnody for her teeth), sem que se pense que outro dia como o de hoje não pode acontecer jamais. Eu não faço a mínima ideia de como será a semana que vem ou o próximo mês, mas definitivamente não é possível mais existir a partir dos últimos anos. Porque toda essa verborragia cansa.

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