Assunto dos deuses
Desde que ouviu que quando os deuses querem nos punir eles realizam nossos desejos surgiu aquela preocupação com o querer e querer que sempre pensou sustentar a vida. Não foi isso que sempre a literatura, a música, as artes plásticas deram?, aquelas possibilidades que se acreditam existir em dimensões, uma dimensão para cada escolha, e elas se multiplicam e se multiplicam, e às vezes se fode muito em alguma, paciência, mas de que, de tudo, sobra apenas o fim último morte, independente de qualquer escolha de que não se soube, independente do que se (não?) quis, independente dos eus de que não se sabe nas outras dimensões. Morre até o que não foi. Lembra-se de que "chega de perguntas, daqui por diante quero que tudo seja resposta" e cruza os dedos, criando outra dimensão, mas escolhendo nesta não ter escolha, escolhendo que o caminho tome a iniciativa e não o contrário, e que por ora ele se caminhe independente, que a vida flua sozinha, abandonando o ser que vive, como se fosse autônoma, como se existisse por si, como se as coisas continuassem, em qualquer dimensão, em qualquer tempo, em qualquer qualquer para além dele, que hoje decidiu descansar e parar. Ainda querendo o mundo, o todo, mais do que se pode querer, só que não para si. Querer querer, sendo que o que mais queria era não querer, ou vice-versa, até que se encalacre absurdado, na tentativa com pálpebras cerradas de enxergar a vida, rumando sozinha ao horizonte, e talvez acenando.

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