Estrelar-se
É assim. Se não me falha a memória, era essa a frase que usava nos posts em que descrevia meu quarto. É a frase que diz agora você presta atenção, porque os detalhes são importantes, embora eu não vá descrever o meu quarto, que não é mais aquele das paredes amarelas, das violetas na janela e da coleção de literatura de que eu até tinha um certo orgulhinho. A coleção foi dividida, entre o quarto descrito há tanto e o novo apartamento, onde ela se colocou na sala por falta de espaço. Mas no meu quarto novo há algozinho de bom, o famoso A noite estrelada do Van Gogh. De alguma maneira, a réplica foi se descolando do vidro em que foi emoldurada, e há partes do quarto, inclusive o centro do céu, o meio bonito em espiral, que fica levemente desfocado-embaçado, como uma imagem em 3D para que se precisa de um óculos para ver bem. Eu não tenho óculos 3D, mas garanto que com eles ficaria mesmo mais bonito. Eu dou garantias sem base empírica, acho que a vida ensina isso do amontoados de clichê que a gente acumula diariamente, cada vez mais amorfos nisso de existência de 6 bilhões e tanto de pessoas, nessa massa toda em que se fincam raízes e raízes sem caules até que, espalhadas, as raízes que são só raízes sem verticalidade nenhuma se tornam permanentes no chão. Um bolo de ramificações indissociáveis do que se pisa. Uma pasta seca. Mas, se olhada de cima, para algum otimista se parecem uma yggdrasil. Eu não sou otimista, nem com a imagem nórdica, que me diz mais da negatividade da precisão de um começo e da indefinição de um fim, qual que seja. A gente já sabe que começa, mas quanto a terminar é só o exercício de implorar, rezar pra que seja bonito, ou que ainda não termine. Às vezes até se reza, nós sempre queremos um pouco mais, tentanto alcançar alturas de que raízes crescentes horizontais são impossíveis. Bando de sísifos. Eu não sou, ou tenho não sido, vá saber de quanto tempo os deuses permitem uma pausa para se lamentar (ou se enternecer) com o vazio ao redor. E agora é a hora do é-assim, você presta atenção: sentar-se na base da montanha e acender um cigarro, olhar para cima e pensar que entre as rochas não importa a altura, já que nada floresce, já que o sol é o mesmo, assim como a noite, já que cume é distante como o horizonte, ao alcance só das linhas paralelas. O cume não é conhecido, mas pense as garantias da vida, os clichês, as afirmações não-empíricas tão exatas. É ter razão subir tanto quanto ficar, sentindo qualquer coisa, até o não-sentir da indiferença, e, no fundo no fundo, e isso nunca será admitido, torcer com todas as forças para que no outro lado da montanha não haja um oásis que nunca se verá e que a vista em volta seja o mesmo nada, e que a noite estrelada não tenha mais estrelas espirais percebidas sem o óculos 3D. É sentar e esperar, cume-base tanto-fazendo. Como uma montanha invertida.

Links to this post:
Create a Link
<< Home